sexta-feira, 15 de maio de 2020

Basta a cada dia o seu mal


Com todo o avanço da tecnologia e da ciência nesses últimos dois séculos, outra coisa também se “desenvolveu” com mais rapidez na sociedade: a ansiedade. Com isso, não quero dizer que só agora é que esse tipo de emoção desvirtuada veio à tona, haja vista que os relatos bíblicos de mais de 5.000 anos atrás atestam que o excesso de preocupação e cuidados para com a vida já estavam presentes naquela sociedade antiga. Prova disso foram as atitudes de Sara com Abraão ao não esperar o cumprimento da promessa de um filho, optando por gerar uma descendência fora do casamento. Moisés, com sua atitude temerosa em ser o portador da mensagem de libertação do povo, também demonstrou leves traços de uma ansiedade que sufoca e que tolhe a coragem para enfrentar as adversidades diante de si.

De fato, muitos desses irmãos do passado passaram por tais situações sem saberem o que de fato estava acontecendo psicologicamente consigo mesmos. A palavra que a Bíblia usa para diagnosticar essa preocupação exagerada quanto ao futuro chama-se pecado. E tem muito mais a ver não com o fato de apenas sermos surpreendidos temendo o que irá acontecer no amanhã, mas sim por esquecermos (ao menos por um instante) que o controle sobre o futuro não está em nossas mãos. Sara pecou por não confiar na promessa dada pelo anjo do Senhor, já que confiar na promessa é abandonar o controle que aparentemente está em nossas mãos. Quando agimos persistentemente como se o amanhã fosse uma consequência direta e única do que fazemos hoje, estamos sim pecando contra Deus. Tiramos Deus do banco do motorista e O colocamos no porta-malas, substituindo-O por nós mesmos na condução de nossas vidas.

Conquanto hoje a psicologia moderna possa tratar a ansiedade e seus transtornos como um tipo de doença emocional, ainda assim os cristãos não devem se esquecer que ela é tanto uma consequência da Queda como também as suas erupções num momento ou outro de nossas vidas nos causa outros males (“um abismo chama outro abismo”). O ponto que quero destacar não é que o fato de sermos ansiosos ou estarmos ansiosos é uma prova de falta de fé. (A maioria de nós conhece muitos irmãos que sofrem (ou já sofreram) desse tipo de mal emocional, conquanto demonstrem uma fé que, se possível fosse, transporia montes). A ansiedade na verdade não causa a falta de fé, antes a abala, a desestabiliza e em muitos casos a equivoca. O assunto que quero abordar é acerca das consequências que uma definição de status ou temperamento como meramente “ansioso”, beirando a acomodação da condição, acaba por gerar indivíduos vitimistas em vez de lutadores.

Alguns dos mais importantes pregadores da Bíblia no passado passaram por momentos de oscilação emocional. Lutero e Spurgeon talvez sejam os casos mais emblemáticos. Forte, avassaladora e muitas vezes incapacitante, ambos foram surpreendidos pela depressão e tiveram que lidar com ela até o fim de suas vidas, mas permanecendo no front dessa guerra interna, guerreando contra si mesmos. Algo curioso é que boa parte dos nossos antepassados também passaram por situações semelhantes de desequilíbrio emocional, numa época cuja mentalidade de hoje atribui equivocadamente como uma vida fácil simplesmente por (supõe-se) não se ter as “preocupações” que se tem hoje. Esse é um pensamento errôneo, já que não se leva em consideração que em cada época há os seus prazeres e dissabores, e, consequentemente, em cada um deles há a variável-gatilho para a preocupação exagerada quanto ao dia seguinte.

Por exemplo, em nossos dias é dada uma grande ênfase em garantir uma estabilidade futura, e nessa estabilidade está embutido o desejo de se ter uma casa própria, possibilidade de trocar o veículo anualmente, realizar viagens, dar aos filhos uma boa educação etc. Mas para se “garantir” tudo isso, o indivíduo moderno crê piamente que exaurir-se no trabalho vale a pena, ainda mais se, depois de conquistar todas essas coisas, ele puder dizer para si mesmo: “Tudo isso é resultado do MEU esforço e dedicação!”. O indivíduo moderno não percebe que ele demonstra estar no controle de sua própria vida, já que (palavras dele) tudo foi conquistado com o seu próprio braço. Com base nessa sua própria experiência, ele acaba supondo que nossos antepassados não eram tão preocupados com o dia futuro, já que não havia algum cuidado sobre viagens, bons colégios ou veículos. Era puro campo, cavalos e charretes.

No entanto, os antepassados conquanto não tivessem inquietações semelhantes às que temos hoje, ainda assim suas preocupações giravam em torno de: manter suas casas protegidas de ladrões e animais selvagens (o homem da casa assumia o caráter de protetor e guardião de sua família); ao saber da notícia de gravidez, havia uma expectativa se o bebê nasceria bem (a medicina era primitiva e não havia exames tão específicos como os que se tem hoje – o médico se limitava a apenas auscultar a grávida); os alimentos eram mais escassos etc. Por mais que hoje analisemos nossos antepassados de uma perspectiva autorreferente, ainda assim eles possuíam as suas ansiedades e preocupações da vida.

Aqui faz bem fazermos algumas considerações. Deus permite ao ser humano planejar prudentemente o que fará no dia seguinte, no entanto, o que Ele não tolera é o planejamento audacioso, egocêntrico e autorreferente. Qualquer planejamento deve levar em consideração que a consecução do que foi planejado só acontecerá se for da vontade do Senhor e se estiver condizente com Seus planos. Mas você pode perguntar: Como podemos saber se o que estamos planejando faz parte da vontade do Senhor a fim de não cairmos no erro da mania por controle? Espiritualmente falando: por meio da oração diária, apresentando diante de Deus suas limitações, lutas, temores e autorreferência, pedindo a Ele que o auxilie a vencer tais adversidades. Ser humilde para receber conselhos e críticas de pessoas que o conhecem são bastante úteis também para saber se o que você planeja é conveniente e justo, e não oriundo de um pensamento ou comportamento ansioso.

Jesus, em Mateus 6, nos orienta sobre o dever de não nos preocuparmos com o que haveremos de comer, beber ou vestir no dia de amanhã, já que Ele mesmo é quem provê tudo o que nós necessitamos. Ele provê o que nós precisamos, e não o que queremos. Quando o ser humano se preocupa exageradamente em acumular mais e mais riqueza com o propósito de garantir estabilidade à sua vida, ele inevitavelmente pode acabar perdendo de vista aquilo que é mais precioso para si mesmo, que é o seu relacionamento com Deus. Por isso que, na parábola do homem rico (cf. Lucas 12), Jesus chama esse homem de tolo porque ele se preocupou tanto em apenas aumentar suas posses e riquezas que acabou esquecendo do que era verdadeiramente importante: a salvação de sua própria alma.

A ansiedade que nos acomete sobre o que irá acontecer daqui a pouco tem esse poder de nos desvirtuar do Caminho, de tirar os nossos olhos do Alvo verdadeiro. É como quando fazemos compras naquelas lojas de departamento (estilo Lojas Americanas). Geralmente entramos para comprar um confeito, mas ao nos dirigirmos para o caixa, entramos naqueles corredores estreitos onde de cada lado há outras ofertas que nos saltam os olhos. Elas têm a função de nos fazer comprar mais do que precisávamos – muitas vezes nem fazia parte dos nossos planos. E, assim, em vez de pagarmos apenas pelo item de nosso desejo inicial, acabamos nos comprometendo financeiramente mais do que o previsto por algo que entrou na lista de desejos, mesmo contra a nossa vontade. Assim é a ansiedade: ela nos desvia do foco necessário de nossas vidas que é Jesus. Ela nos apresenta coisas que são contra a nossa vontade, mas que se tornam aparentemente necessárias para o nosso viver. Não demora muito para que aquilo que era aparentemente necessário torne-se essencial, em seguida, importante, e logo mais, vital. Dessa forma, a fé que temos no Salvador acaba sendo pouco a pouco desencaminhada do seu propósito real.

Há um problema que muitos enfrentam no que diz respeito à ansiedade que é o fato da apropriação do transtorno. Depois que a pessoa se desequilibra emocionalmente, caso não sendo tomada as medidas cabíveis para o enfrentamento desse “pecado-doença”, ela acaba se apropriando daquela condição, passando a se ver a partir de então como alguém ansioso. Essa condição torna-se agora parte de sua característica humana (ao menos é o que ela acredita), não demorando para ela se apresentar diante dos outros como uma pessoa ansiosa. Ela não mais se utiliza da expressão “luto contra a ansiedade”. Não! Ela basicamente entregou os pontos, deixou que a ansiedade tomasse conta de seu intelecto, personalidade e identidade. Por isso que para muitos que sofrem de ansiedade, eles já não mais demonstram vontade em querer superar tal condição ou continuar lutando contra ela; preferem tranquilizar suas consciências ao melhor estilo Gabriela: “Eu nasci assim, eu cresci assim e eu sou mesmo assim...”.

O indivíduo que sofre de ansiedade “exagerada” (falar isso é quase uma redundância, já que ao pé da letra ansiedade significa preocupação exagerada) tende a continuar com seu comportamento de autorreferência, beirando muitas vezes o egocentrismo, já que se alguém procura orientá-lo ou encorajá-lo a continuar lutando contra o que o acomete, a tendência dele será ou superestimar sua própria crise – dizendo que é difícil (senão impossível) superá-la ou que só quem passou por ela alguma vez na vida entende de fato o que ela é – ou subestimá-la – e, nesse caso, entra muitas vezes o “negacionismo” do que ele está passando, que acaba demonstrando não reconhecer que precisa da ajuda de outros para enfrentar sua luta.

Quando o indivíduo superestima a ansiedade, ele pode acabar caindo naquilo que o psiquiatra Theodore Dalrymple chama de sentimentalismo tóxico, cuja pessoa, por internalizar aquela condição de ansiedade, descamba num comportamento vitimista diante dos outros. No entanto, curiosamente apesar de ela demonstrar esse vitimismo, no fundo ela não quer ser ajudada a superar sua condição. O que ela quer de fato é apenas uma plateia para se sensibilizar do seu sofrimento. Não demorará muito para que ela se torne dependente emocionalmente dos outros, tendo em vista a incapacidade e deficiência permanente que ela atribui ao seu estado mental.

Para o cristão é sempre difícil notar quando alguém está agindo com autocomiseração ou não. O amor bíblico não permite fazer acepção de ninguém. Entretanto, é preciso entender que autocomiseração não é sinônimo de humildade. Muitas vezes, o indivíduo que sofre de ansiedade acaba relatando sua condição apenas com o objetivo de ser visto como alguém digno de pena (embora não queira ser ajudado), e não contrito ou reconhecedor da sua miserabilidade. O cristão precisa ter o discernimento para identificar quando está diante de um indivíduo, um irmão na fé, que sofre de ansiedade, não obstante esse irmão esteja agindo com autocomiseração em vez de humildade para reconhecer que precisa de ajuda na luta contra as suas crises emocionais.

A Bíblia nos orienta a suportar-nos uns aos outros – “é melhor dois do que um, pois se um cair, o outro pode levantá-lo.”. No entanto, quando o indivíduo que sofre de ansiedade não admite sua condição, o suportar torna-se uma empreitada ainda mais difícil. É como o viciado em drogas da família que diz poder parar a qualquer momento, mas nunca chega esse momento e tampouco reconhece o seu vício. O amor bíblico não é para ser conivente ou complacente com o pecado, a falha e os equívocos do irmão, mas sim para ser confrontador e exortativo quando se faz necessário. Muitas vezes, o indivíduo que sofre de ansiedade já se posiciona em autodefesa contra qualquer um que levante o tema da superação da ansiedade, e, assim, ele acaba procurando respostas, das mais mirabolantes, para justificar a sua atitude passiva frente à sua condição ansiosa. Expressões como “Você não entende o que é a ansiedade” ou “Quando você passar por ela, aí você pode falar dela” são as mais comuns. Mas, novamente, agir assim é se esquivar do problema e não querer sair dele.

A energia despendida pelo indivíduo que sofre de ansiedade seria mais bem empreendida se ele a utilizasse para perseverar na luta contra a sua condição. Muitas vezes, ele prefere criar todo o tipo de argumento para justificar a acomodação ao seu distúrbio do que se submeter aos conselhos ou à ajuda que outras pessoas lhe oferecem. E, conquanto ele aceite a princípio tal ajuda, a autodefesa uma vez ou outra surge quando ele opta por atentar a uma palavra ou expressão dita do que ao todo apresentado. Tudo isso, sim, sabemos que é fruto do desequilíbrio emocional que o acometeu, por isso é peremptoriamente necessário que o indivíduo procure ser lembrado de quem ele é enquanto imagem de Deus. Tendo em vista que o indivíduo acabou assimilando essa condição de ansiedade para si mesmo, tornando quase que inerente ao seu ser, somente quando substituímos essa condição assimilada por Aquilo que é de fato o importante e vital para o ser humano é que o indivíduo passará a ter uma vida longe da ansiedade, conquanto por ainda estar neste mundo possa ser acometido em um ou outro momento por um pensamento ansioso ou planejamento imprudente.

Timothy Keller diz que os ídolos falsos que se instalam no nosso coração só podem ser sobrepujados com a instalação de Algo maior do que eles mesmos. As preocupações psicológicas que temos podem acabar se transformando em ídolos do nosso viver. Para superar isso, somente quando nos apropriamos de Jesus como nosso Consolador, Pastor e Senhor da nossa vida é que seremos libertados desses ídolos que acabam causando em nós ansiedades, crises e transtornos. Enfatizo novamente que estar ansioso não é falta de fé, mas sim um desvirtuamento dela, e infelizmente pode acabar gerando idolatria caso passamos a nos ver meramente como alguém cuja ansiedade faz parte da nossa constituição humana e identitária.

Aos irmãos de fé que sofrem desse desequilíbrio emocional, saibam que podem contar sempre com um ombro amigo para lhes confortar e consolar por meio da Palavra, mas não esperem ouvir aquilo que querem ouvir, e sim o que precisam para continuar na sua luta contra a ansiedade e quiçá superá-la. O primeiro passo é sempre reconhecer a nossa mazela e que precisamos da ajuda do Alto. Choraremos quando for preciso chorar, mas nos alegraremos ao sermos lembrados de que a Esperança que precisamos para lutar contra tais emoções tóxicas se encarnou, morreu por nós e ressuscitou. E que essa Esperança também lutou contra e venceu as aflições do mundo. Afinal de contas, somos servos do Deus Altíssimo, preparados para combater o bom combate, concluir a carreira, sempre guardando a fé que Ele nos deu, e, no final, a coroa que herdaremos suplantará qualquer cruz (sofrimento, adversidade e luta) que aqui passarmos. Em suma: “Lancem sobre ele toda a sua ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês.” (1 Pedro 5.7) e, “Mas eu, quando estiver com medo, confiarei em ti.” (Salmos 56.3).

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Bajulação não é sinônimo de amor


Na igreja (assembleia) há pessoas dos mais variados tipos: tímidos, corajosos, ouvintes, faladores, atuantes, perseverantes, acomodados etc. Podemos não perceber, mas volta e meia nos defrontamos com aquele que pode causar um grande dano ao serviço cristão. Refiro-me ao bajulador.

O bajulador, muitas vezes, age de forma sutil, não apenas por meros elogios, mas através de comportamentos aparentemente piedosos e motivacionais. Isso não quer dizer que não devamos elogiar alguém ou sermos solícitos e motivadores aos nossos irmãos. Pelo contrário, a mente verdadeiramente cristã (que não se preocupa com reciprocidade ou em granjear status no círculo eclesiástico) consegue elogiar e motivar as pessoas de uma forma que sempre aponte para Aquele que a redimiu.

Como mencionado anteriormente, o objetivo principal do bajulador é adquirir status (mais até do que receber tratamento recíproco). Sendo assim, ele procurará direcionar todos os seus atos e "benevolências" àqueles que de uma certa forma possuem alguma "relevância" na igreja: na maioria das vezes, pastores e líderes; em casos excepcionais, determinadas pessoas que possuem certa amizade com outros que o bajulador considera como "relevantes".

Mesmo sabendo que na igreja não há hierarquia vertical, e sim horizontal, já que todos somos membros de um mesmo Corpo, o bajulador ainda assim acaba interpretando as posições exercidas por essas pessoas (pastores e líderes) como algo preponderantemente de alta classe, por isso ele age procurando se achegar e se envolver a tais pessoas por meio de comportamentos cada vez mais lisonjeiros, conquanto aqueles que são o alvo de seu intento muitas vezes não percebam.

O fato de nós geralmente não percebermos que estamos sendo vítimas do bajulador é que nos falta a prudência devida para discernirmos tais atitudes. Encantamo-nos muito facilmente quando nos tratam bem - pensamos logo que aquela pessoa está exercendo o altruísmo cristão, o que é o esperado de qualquer um que se professe cristão, no entanto, temos que ser relembrados que, mesmo dentro da igreja (assembleia), há lobos vestidos de peles de ovelhas e que podem confundir nossas mentes.

Um exemplo de como devemos ser prudentes a fim de não nos tornarmos vítimas do bajulador/adulador vem do próprio Jesus. Na passagem de Mateus 22.15-22, que trata sobre a questão do pagamento de tributo (uma das passagens mais conhecidas e citadas no mundo), os versículos 16 e 17 acabam passando despercebidos em nossa leitura, e é justamente onde se encontra um bom ensino sobre o fato de sermos prudentes e atentos quanto à bajulação. Os fariseus sempre engendraram táticas para tentar pegar Jesus em alguma falha. Dessa vez, eles se juntaram com outro grupo religioso (os herodianos) para atingir seu intento. Pois bem, alguns discípulos desses dois grupos (provalmente os mais destacados) se juntaram para enfim surpreender Jesus. Curiosamente, esses discípulos não chegaram mostrando explicitamente seu objetivo. Pelo contrário, eles se aproximaram de Jesus elogiando o ensino dEle ("ensinas o caminho de Deus, de acordo com a verdade..."), bem como o próprio caráter de Jesus ("és verdadeiro...não olhas a aparência dos homens"). Mas todos esses elogios eram falsos, já que não correspondiam ao que de fato eles pensavam sobre Jesus.

O bajulador dentro da igreja age de forma semelhante. Para conquistar o status que tanto anseia, ele consegue expressar palavras que não correspondem de fato ao que pensa. O intento dele é unicamente chegar ao posto tão desejado, pois com isso (ele pensa) as pessoas poderão valorizá-lo mais, respeitá-lo mais e, quem sabe, bajulá-lo mais. Sua conduta para com líderes e pastores é totalmente diferente da que ele tem para com os demais membros. Não é que ele também não bajule membros "comuns" da igreja. Em alguns momentos ele se mostra solícito e adulador a seus irmãos de fé, entretanto, se um dia ele puder escolher entre ajudar, por exemplo, o irmão "comum" ou ajudar o líder/pastor, conquanto a necessidade do irmão "comum" seja mais gritante do que a do irmão líder/pastor, o bajulador inevitavelmente escolherá ajudar a quem (conforme ele pensa) pode trazer mais reconhecimento e status, que, nesse caso, será ajudar o líder/pastor. Por alguma forma equivocada de ler a Bíblia ou de ter compreendido erradamente a mensagem do Evangelho e do que significa o serviço, o bajulador crê piamente que se posicionar mais perto dos que possuem cargos de liderança na igreja ou que tenham visibilidade, consequentemente, fará ele ser mais notado como alguém de caráter ilibado ou piedoso.

Continuando o relato de Mateus 22, o texto nos informa que, assim que aqueles discípulos interpelaram Jesus e fizeram a pergunta, o Messias identificou logo de cara que a postura elogiosa deles, antes de fazerem a pergunta, escondia uma malícia por trás. O que eles disseram sobre o Mestre era apenas para esconder a arapuca em forma de pergunta. O texto nos diz que Jesus conheceu a malícia deles em forma de bajulação. E deu a resposta à altura do que merecia a pergunta. Ou seja, Jesus identificou a conduta bajuladora daqueles discípulos e não passou a mão pela cabeça deles.

Na nossa vida cristã devemos ser perspicazes em identificar qualquer tipo de caráter desvirtuante de uma vida que se diz redimida por Cristo. Não é que tenhamos que ser céticos a qualquer tipo de elogio que nos dão, ou tampouco tornarmo-nos fiscais da conduta do outro, mas temos que ser menos românticos nas nossas relações e mais prudentes na maneira como recebemos determinadas pessoas, principalmente se exercemos cargos de liderança. O porquê disso não é por estarmos inseguros quanto a sermos destituídos do cargo e nos substituírem por aquele que nos bajulava. Antes, a importância de termos prudência é que isso também faz parte da preocupação que devemos ter com relação à saúde espiritual dos membros que fazem parte do Corpo.

Um bajulador dentro da igreja tem a capacidade de deturpar, como um toque de Midas às avessas, o significado da expressão "acepção de pessoas" de uma forma que beneficie a ele mesmo. Dificilmente você verá o bajulador praticando o básico de qualquer relacionamento interpessoal cristão, que é a exortação, admoestação ou reprimenda a algum irmão faltoso. Pelo contrário, para ele, fazer isso é denegrir a sua própria imagem diante das pessoas, tendo em vista que (conforme ele pensa) tais condutas não trazem a ele visibilidade positiva diante dos outros.

Para o bajulador, o mais importante será a quantidade de vezes que ele elogia alguém (conforme ele pensa) da alta classe eclesiástica ou o quanto de serviço aparentemente piedoso ele exerce na companhia daqueles a fim de granjear ainda mais visibilidade e reconhecimento. Qualidade é uma palavra com que ele pouco se importa, ainda mais se se referir à sua própria condição espiritual.

Sendo assim, precaver-se contra bajuladores também é um assunto que está na Bíblia, e com exemplos de como se comportar diante deles vindos do próprio Salvador e Redentor Jesus. Qualquer bajulador pode um dia ser curado de sua bajulação, e, enfim, substituir sua bajulação a pessoas pela adoração unicamente a Deus. Podemos não saber logo de cara quem se porta como um adulador, mas se tivermos verdadeiramente a mente de Cristo saberemos identificá-lo por causa de sua conduta. Por isso temos que ser "simples como as pombas, e prudentes como as serpentes".

domingo, 13 de outubro de 2019

A idolatria materna rouba a glória de Deus

Uma das consequências maravilhosas de um casamento bíblico é a possibilidade de se ter filhos, e poder ensiná-los à luz das Escrituras. Textos como Provérbios 22.6 e Salmos 12.3-5 ressoam em nossas mentes todas as vezes que o assunto vem à tona. Sem dúvida, ter filhos no Senhor é uma bênção, mas pode se transformar em maldição caso os nossos corações estejam voltados para eles em vez de para Aquele que nos agraciou.

O que mais chama a atenção é o comportamento dos pais, principalmente a mãe, no que tange ao amor que é dado aos filhos quando eles nascem. Provavelmente você já deve ter ouvido, ou visto em alguma postagem de rede social, a mãe retratando quão indescritível é o amor que ela sente pelo seu infante. Adjetivos faltam a ela para exprimir quão profundo é esse sentimento. E o mais controverso é que, mesmo dentro do próprio meio cristão, isso tem sido aplaudido, perpetuado e até mesmo estimulado.

Não estou pondo em xeque o sentimento materno pela criança. Afinal, qual é o pai ou a mãe que não nutre tal acalento pelo filho mesmo antes de ele nascer?! O problema está naquilo que chamo de "idolatria materna", ou "idolatria à maternidade" - que é uma condição de anestesia dos pais, principalmente a mãe, pelo filho, chegando ao ponto de transformá-lo num ídolo, e substituindo Deus por esse novo objeto de amor, devoção e adoração.

O que atesta essa condição idolátrica é justamente o fato de a mãe não conseguir definir o seu amor emotivo pelo filho. Palavras como "indescritível", "sobre-humano", "absurdo", "sem igual", utilizadas para expressar o amor que sentem por seus filhos, são parecidas com aquelas que usamos para definir o amor que o próprio Deus tem para conosco, e que deveríamos buscar retribuí-lo semelhantemente. Talvez, o próprio fato de a mãe se expressar desse jeito já poderia ser uma vantagem sobre os homens, no fato de retribuírem aquele amor divino ao Criador. Mas, infelizmente, esse amor materno acaba se transformando num fim em si mesmo, e o que deveria ser motivador torna-se estático.

Quando digo que isso atinge principalmente as mães, refiro-me ao fato de ser ela a incubadora daquele infante, já que o carrega por nove meses em seu ventre, além de passar por todos os ciclos hormonais e fisiológicos possíveis a fim de manter aquela vida ativa e crescendo. O pai não é nem coadjuvante. Antes, acaba se tornando apenas uma figurante, tentando sofrer junto, mas sem possuir as mesmas dores por quais a mãe passa. Mas ainda assim, ele também não deve ser desresponsabilizado pela idolatria materna que acontece. Pelo contrário, se o pai cristão agisse como pastor, guia e líder de sua esposa, saberia muito bem como proceder a fim de reconfigurar essa idolatria à maternidade para a adoração (e gratidão) ao Deus verdadeiro que bem-aventurou a sua esposa.

Quando a criança nasce, é natural receber mais atenção e cuidado por parte dos pais, e principalmente da mãe, haja vista que como qualquer mamífero, ela precisa ser amamentada, acalentada e se sentir segura da mesma forma que era enquanto estava no ventre. O período em que os pais ficam sem fazer sexo é uma condição em que o próprio Deus abençoa a fim de que eles possam prover o necessário para aquela criaturinha que acabou de vir ao mundo. O problema surge quando o coração dos pais, após esse período de "castidade", se volta unicamente para o filho, o que faz com que cada cônjuge abandone um ao outro. Quando isso acontece, os pais não percebem como abrem brecha para a ação do diabo em seu casamento. A idolatria materna é o primeiro passo para o esfriamento espiritual e, consequentemente, marital.

Na Bíblia, lemos a história de Ana, a mãe de Samuel, que, após prometer a Deus que se tivesse um filho, o entregaria a Ele para servir no Templo, teve seu ventre agraciado. E ela realmente o entregou para o ofício sacerdotal. Ana cuidou de Samuel até a idade devida para ele começar o seu treinamento aos pés do sacerdote Eli. Ana todos os anos o visitava. Imagino que se essa mentalidade atual da idolatria materna atuasse naquela época, provavelmente Ana teria procrastinado os dias de Samuel na sua casa o máximo possível, a fim de que ou Deus ou o sacerdote Eli esquecessem do que ela havia prometido. Por que ela agiria assim? Porque a idolatria materna, além de comprometer o entendimento, acaba criando uma visão dualista de posse, em que começa-se a pensar naquilo que é meu e no que é do Senhor. 

Quando não compreendemos que tudo aquilo que temos pertence ao Senhor (que nada que temos é nosso por si só), o nosso coração tende a se voltar para aquilo que pensamos mais amar. No caso da idolatria materna, o coração da mãe (e/ou do pai) volta-se ao filho de uma forma quase sacerdotal. Por exemplo, se fosse para a mãe escolher quem ela salvaria num naufrágio, o marido ou o filho, caso ela possua essa idolatria à maternidade, não pensará duas vezes em escolher o filho. É possível que ao pai, o mesmo pensamento ocorra. Ou seja, ao agir assim, ela demonstra que compreende erroneamente, e equivocadamente, o que de fato é o amor bíblico, amor esse que abarca o entendimento que devemos possuir acerca dos outros tipos de amores (amigo, cônjuge, filhos etc.).

O amor divino, amor paterno de Deus para com seus filhos, é o melhor exemplo que podemos ter sobre como amarmos com verdade, responsabilidade e sem idolatria. O Deus que nos ama nos ensina, por sua Palavra, Quem de fato devemos amar de uma forma indescritível, absurda e sem igual, em primeiro lugar. Só quando amamos a Deus com todo o nosso coração, todo o nosso entendimento, todas as nossas forças e toda a nossa alma, é que poderemos amar o nosso próximo, seja ele cônjuge, filhos, amigos, parentes e desconhecidos, de uma forma que verdadeiramente glorifique ao próprio Deus.

Se você insiste em uma indefinição do amor que sente pelo seu filho, tome cuidado. Pode ser que você já esteja flertando com a idolatria materna e nem sabe. Ao achar que está agindo bem, pode não estar sendo bíblica. Ao achar que está fazendo um sacrifício, pode não estar sendo obediente. Ao achar que está sendo exemplo para seu filho, pode estar fazendo um desserviço para o Evangelho de Cristo.

Nossos filhos começarão temer e amar ao Senhor quando perceberem quem nós mais tememos e a quem mais amamos. Se eles descobrirem que os transformamos em pequenos ídolos, então nossa pregação será vazia, e nossas orações não passarão do teto. É quando criamos (e amamos os) filhos para o Senhor, e não para nosso próprio bem-estar, é que estaremos com nossos corações voltados para glorificar a Deus, amar a Sua Palavra e depender do Espírito Santo. Não deixemos que a bênção do Senhor (o filho que Ele nos dá) se transforme em maldição (dar o nosso coração para nossos filhos, e não para Deus).

domingo, 29 de setembro de 2019

Teologia, sim, também é para crianças

Há um certo pensamento no meio cristão que parece ser "contrário" ao ensino da teologia às crianças - parece atingir pais especificamente. Coloco entre aspas a palavra contrário pois não é que os pais achem que a teologia nunca deva ser ensinada, mas que eles demonstram não levar tão a sério o ensino dela em idades tão precoce. É como se a teologia fosse vista como um tipo de sociedade secreta, onde só a partir de determinadas idades o indivíduo poderá ser apresentado a ela e terá o senso correto para ser ensinado. Porém, tal pensamento não é bíblico.

Alguns pais podem achar que ensinar a Bíblia é diferente de ensinar teologia, no entanto, ao se executar o primeiro, deve-se possuir alguns conceitos por trás do que é ensinado, a fim de facilitar o entendimento das crianças. O pai que lê com seu filho João 3.16 deve ter em mente que ali naquele simples texto contém doutrinas teológicas como soteriologia e escatologia. Não quer dizer que a criança tenha que saber de pronto o que dizem as diversas correntes teológicas, mas sim que o básico da teologia deve permear os estudos com seus pais.  

Tal como o ensino bíblico, o ensino teológico também está englobado na instrução de Paulo a Timóteo quando ele diz: "Toda escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra." (2 Tm 3.16,17). Como os pais poderão exigir dos filhos conduta cristã quando eles forem adolescentes e jovens se quando eram infantes não tiveram nenhum tipo de instrução e ensino bíblico-teológico por parte dos pais? Eis uma prece difícil de ser atendida.

Algo que acomete muitos pais cristãos no que diz respeito a esse cuidado para com os filhos é o fato de eles terceirizarem esse tipo de educação cristã-teológica. Muitos pais não exercem seus papeis de líderes de seus filhos no lar, não estudam com eles a Bíblia, muitos sequer dão o próprio exemplo em meditar e ler as Escrituras, e acabam confiando seus filhos à escola bíblica dominical. O problema é que os filhos vão para essas aulas muitas vezes sem saber o básico da vida cristã e, se lá tiver alguém comprometido em ensiná-los, eles até podem adquirir alguma noção, mas se for apenas alguém preocupado em entretê-los, então eles voltam para casa mais vazios do que quando chegaram na igreja.

Quando pais se comprometem com a educação teológica de seus filhos, proporcionalmente a cada idade, eles estarão fazendo um favor tanto aos filhos como para a sociedade em que vivem. Lembrem-se que um dos maiores exemplos de educação teológica vem do próprio Salvador. Jesus Cristo possuía doze anos quando estava no templo discutindo com os mestres da lei, e os próprios se impressionavam com sua inteligência da Escritura. Hoje, mesmo dentro do seio cristão, adolescentes de doze anos insistem em agir como bebês mimados, não se interessam em ir aos cultos, tampouco em estudar a Bíblia, e muitas vezes com o consentimento dos próprios pais. Se fôssemos a fundo para saber o porquê, é capaz de encontrarmos justamente essa omissão de não tê-los ensinado teologia quando eram infantes.

Teologia não salva ninguém. O que ela faz é te capacitar para compreender melhor a história, a sociedade, e principalmente, o que a Bíblia instrui. 

William Lane Craig, na introdução do seu livro Em guarda, resume bem como deveria ser a preocupação dos pais com o ensino teológico para seus filhos: "Os pais devem fazer mais do que apenas levar seus filhos à igreja e ler histórias da Bíblia para eles. Pais e mães precisam ser bem treinados em apologética para que sejam capazes de explicar aos filhos, desde pequenos e cada vez com maior profundidade, por que cremos naquilo que cremos. Honestamente falando, acho difícil de entender como casais cristãos, nesses tempos em que vivemos, podem correr o risco de trazer filhos ao mundo sem terem recebido um bom treinamento em apologética como parte de seu ofício de pais.".

É isso. Os pais deveriam ter uma preocupação maior tanto com a alma de seus filhos como com a integridade e postura deles face aos desafios dos tempos atuais. A teologia não substitui a Bíblia; antes, complementa e expande o que Deus nos deixou escrito. Ela sempre terá como base aquilo que a Bíblia instrui. Achar que as crianças não podem compreender a teologia da cruz, a teologia do reino, a teologia da salvação, simplesmente por supor que elas não possuem idade suficiente para isso é quase como uma negação do poder e da soberania de Deus na vida delas.

O interessante nesse pretenso temor dos pais por ensinar teologia aos seus filhos é que eles acham mais fácil a criança aprender matemática, geografia, ciências, física, química, robótica, e todas aquelas disciplinas escolares, mas não teologia. Talvez a preocupação com o futuro profissional dos filhos acabe por ofuscar a real importância em alimentar suas almas com aquilo que é bíblico e teológico. E isso pode ser um baita problema quando imaginamos no que eles podem se transformar caso não estejam firmados na rocha correta.

Que o estudo sincero e predisposto da Bíblia possa conduzir os pais à teologia. Que os pais não se enganem achando que só o pastorado ou as lideranças são capazes de instruir seus filhos teologicamente. Que por meio de exemplos como os de Samuel, Daniel, Davi e Jesus, os pais possam compreender a importância de ensinar teologia aos seus filhos. Que os pais possam, enfim, saber que nenhum trabalho no Senhor é em vão (1 Co 15.58), principalmente ensinar teologia aos seus filhos desde o momento em que eles pronunciam as primeiras palavras.

domingo, 15 de setembro de 2019

Não seja um "adultescente" cristão

Nem sempre o cristianismo que dizemos professar corresponde à maturidade espiritual que dizemos possuir. Com isso, não é surpresa nenhuma vermos adultos cristãos se comportando mais como adolescentes ou crianças de colo do que como verdadeiros guerreiros do estandarte cristão.

Paulo em 1 Coríntios 13.11 revela que quando ele "era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança; mas, assim que {chegou} à idade adulta, {acabou} com as coisas de criança." O fato é que tudo na vida do ser humano tem um tempo e um momento. Paulo teve o tempo, antes de ser integrado a Cristo, de agir como quem não tem pastor, como quem pensa que tudo é brincadeira e fanfarras. Mas, a partir do momento em que o Evangelho do Reino lhe concede vida abundante, enfim, ele começa a crescer, amadurecer, e parar com as coisas de criança, fossem elas pensamentos ou atitudes infantis, raciocínios ou conversas imaturas.

De fato, a vida do cristão possui essas fases de imaturidade, onde ele ainda tem que beber leite em vez de comer alimento sólido. Porém, como qualquer processo de crescimento humano, a vida espiritual também requer que o cristão não se contente unicamente em beber aquele leite espiritual. E isso faz toda diferença se quisermos ser testemunhas de Jesus Cristo. Cristãos que já possuem anos de conversão, mas que ainda agem como se fossem neófitos, demonstram possuir uma falha no que diz respeito à sua própria caminhada cristã. Muitos acabam não percebendo, e findam por se envolverem em determinadas atividades eclesiásticas sem possuírem o mínimo exigido biblicamente para tal (cf. 1 Timóteo 3). O resultado, mais dia menos dia, não será dos melhores.

A despeito dos vários textos bíblicos que conclamam o cristão a progredir no amadurecimento de sua fé em Cristo e de sua caminhada cristã (cf. Salmo 90.12; Colossenses 4.6; Efésios 5.15; 1 Tessalonicenses 4.1; Filipenses 4.14; 1 Coríntios 2.16; Tiago 1.5; 2 Pedro 3.18 etc.), ainda assim muitos dos adultos cristãos optam por viver uma vida cristã de eterno divertimento, entretenimento e licenciosidade. Com isso, acabam sendo o exemplo negativo de modelo cristão para seus filhos (se assim possuem), colegas de trabalho, vizinhos ou familiares. 

O padrão a ser perseguido não é o dos pais da igreja, dos teólogos reformados, dos puritanos ou dos pregadores da velha escola do século passado, conquanto muitos deles sejam exemplos de santidade e maturidade cristã, mas sim Jesus Cristo, esse sim que é o modelo perfeito para o amadurecimento do cristão. Entretanto, ainda que os adultos cristãos afirmem segui-lo e professar seus mandamentos, na realidade o que pode ser visto é um ateísmo prático, onde Cristo pouco (ou nada) faz parte das diversões, estudos bíblicos (individual ou em grupo) e das conversas deles.

Ao cristão não lhe é proibido rir ou contar piadas, desde que isso não se torne o seu ideal de vida. O problema surge a partir do momento em que as conversas, reuniões e discussões (aparentemente bíblicas) são pautadas unicamente por querer transformá-las em motivo de piada ou chacota gospel. O adulto cristão que sente alegria em ser o bobo da corte de sua turma demonstra tanto imaturidade como um tipo de complexo de Peter Pan, querendo agir e ser visto como uma eterna criança. Só que agir assim não é o que a Bíblia orienta. 

Que os adultos cristãos possam amadurecer na caminhada cristã, não entristecendo o Espírito Santo que neles habita (se de fato eles são cristãos). 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

O protecionismo atravanca o progresso

Vivemos em um país que se vangloria por seu imenso protecionismo tresloucado. Diferentemente de países onde a frouxidão das barreiras alfandegárias os tem auxiliado a desenvolverem suas economias, permitindo uma competitividade e qualidade maior em relação a produtos nacionais e, consequentemente, maior consumo de itens importados por parte da população, assim como melhores relações comerciais com países desenvolvidos, o Brasil segue na direção contrária, se colocando na mesma posição de nações com regimes totalitários (como Venezuela, Cuba e Coreia do Norte), atestando sua mentalidade e acomodação como país subdesenvolvido.

A forma estatizante de governo é uma das principais causas do atraso econômico em que o país se encontra. A vontade estapafúrdia que o Estado tem em querer ser “dono” e fiscal de cada serviço “imprestável” prestado ao cidadão é personificado na acomodação desse mesmo cidadão em querer que o Estado continue sendo sua “ama de leite”. Não advogo uma total exclusão da atuação do Estado, apenas que ele aja de uma forma mínima no contexto civil. Muitos dos assim chamados serviços públicos, desempenhados pelo Estado, poderiam ser realizados pelo setor privado sem a necessidade de licitações e regulamentações que estamos acostumados a ver.

Há lugares no nosso país tupiniquim que não possuem sequer saneamento básico, com a população [sobre]vivendo como se estivesse no século 16 ou 17. Se o Estado desobstruísse esse serviço para empresas privadas executarem-no, o fio de esperança em se acabar com doenças do século passado estaria ainda vivo. Mas o ímpeto em querer protelar a dependência estatal para a resolução de problemas parece um tipo de lavagem cerebral.

Uma das melhores coisas que pode existir em uma nação, e que estimula seu crescimento econômico, é a liberdade de negociação, oferta e escolha (ou livre mercado), ou seja, para um empreendedor que produz determinado item, haverá um consumidor que demande esse produto/serviço. Quanto mais vendedores existirem para ofertar aquele produto, mais qualidade se terá na oferta e mais possibilidades de escolhas para o consumidor. O vendedor procurará sempre melhorar seu produto para ser comprado o mais rápido possível pelo cliente e este, na medida do razoável, barganhará a fim de pagar o valor justo pelo produto.

Vemos que isso não acontece muito no Brasil. Um dos exemplos claros é o Uber. Taxistas (e seu sindicato) não toleraram a presença desse serviço, que por sinal é mais barato, mais confortável e mais rápido. A primeira coisa que fizeram foi protestar para que fosse banido do país. Tentativa sendo frustrada, propuseram que sua atuação fosse regulamentada, o que transformaria o Uber em um serviço burocrático como o Táxi. Para estes, a preocupação não está no consumidor. Antes em perpetuar seu próprio monopólio.

Essa dependência para que o Estado sempre proteja uma determinada classe já virou rotina nos arraiais brasileiros. É lei de cotas raciais para universidades e empregos públicos, projetos assistenciais (Bolsa-Família, Minha Casa Minha Vida, por exemplo), regulamentações que beneficiam sindicatos e cada vez mais criam-se leis com a desculpa de “proteger” o cidadão, quando, na verdade, perpetua-se o controle estatal sobre a vida das pessoas.

Enquanto não acordarmos do sono da dependência governamental que vivemos, continuaremos a ser um país com mentalidade subdesenvolvida, com os mesmos sonhos utópicos de que o Leviatã sabe o que é melhor para os cidadãos do que eles mesmos. Como disse o economista Roberto Campos: “Sempre achei que um dos mais graves problemas dos países subdesenvolvidos é sua incompetência na descoberta dos seus verdadeiros inimigos. Assim, por exemplo, os responsáveis pela nossa verdadeira pobreza não são o liberalismo nem o capitalismo, em que somos noviços destreinados, e sim a inflação, a falta de educação básica e um assistencialismo governamental incompetente, que faz com que os assistentes passem melhor do que os assistidos.”

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Relações comerciais dão frutos, basta plantar as sementes certas

Quando se estuda economia, nos é apresentado um conceito chamado vantagem comparativa, que nada mais é do que a escolha por realizar trocas comerciais - possibilitando menos perda de tempo na produção de certos bens de consumo - do que optar por produzir tudo em seu próprio território. De forma prática, se um agricultor A planta laranjas e melancias em sua terra, enquanto outro agricultor B produz queijo, laranjas e melancias, mas preferiria se dedicar apenas à produção de queijo, já que é o que sabe fazer melhor, este agricultor B possui uma vantagem em comparação ao agricultor A, e então pode optar por, em vez de continuar plantando laranjas e melancias, comprar de A. Tal atitude redundará na contenção de gastos (desnecessários) que o produtor B terá se dedicar-se apenas à sua produção de queijo. O produtor B poderia também comercializar o queijo com o produtor A - caso ele estivesse interessado em comprar -, já que tal alimento não faz parte de sua produção. E assim temos o comércio entre duas pessoas.

Isso é o que acontece quando dois países assinam acordos e tratados de comercialização de produtos importantes para o desenvolvimento de cada um. Ainda que entre eles, um possa ser capaz de produzir todos os produtos (chamemo-no de X), torna-se mais vantajoso dedicar-se à produção de um bem em específico para comercializá-lo com países que não possuem tanta facilidade em produzi-lo (chamemo-nos de Y). Como em qualquer tipo de acordo não existe apenas um lado que sai ganhando, é necessário que o país X "invista" no país Y a quem irá vender, e ele faz isso comprando produtos que são os únicos que este pode produzir (por mais que ele - X - produza esses mesmos itens, entretanto o ganho com a venda do produto específico é mais compensatória do que a compra do produto básico).

A tendência é que países que possuem destaque na produção de itens específicos (p. ex., a Coreia do Sul e sua indústria de tecnologia), mas que não possuem áreas para produção de itens mais básicos de consumo (como alimentos, em geral), entre em relação com países que o possuem, causando um benefício mútuo entre as duas nações. Essa é a maravilha da globalização: o foco no crescimento e desenvolvimento econômico apoiado na cooperação comercial.

Essas relações comerciais é o que fazem hoje você estar vendo esse texto com o seu computador ou celular. O Brasil não possui uma cadeia de produção de cada item do computador ou celular (restringe-se mais a cadeia de montagem). Os componentes elétricos são fabricados em algum lugar da Ásia, que são exportados até desembarcar no Brasil. As baterias de lítio são produzidas em outra parte do mundo. O vidro da tela pode até ser produzido aqui, mas seus softwares são patenteados por outra empresa estrangeira. O que quero dizer é que torna-se dificílimo, hoje em dia, um país ser autossuficiente na produção de itens desde a concepção de cada parte que os compõem. É assim com qualquer produto, até mesmo um lápis. Milton Friedman traz uma boa reflexão sobre quão "complexo" é a produção de um lápis.

Quando países se fecham ao comércio, com a justificativa de aspirarem desenvolver a indústria nacional, eles estão cavando a sua própria sepultura de falência e derrocada econômica. Haja vista que estarão indo na contramão do verdadeiro desenvolvimento. Quanto mais parceiros comerciais um país tiver, mais possibilidades haverá para que novas indústrias sejam abertas - o que gera emprego e mais renda aos trabalhadores - de forma a propiciar mais exportação de produtos e, consequentemente, mais crescimento econômico. Lembre-se: em verdadeiros acordos de livre comércio, todos saem ganhando - o importador e o exportador.

É dessas relações que nascem os famosos blocos econômicos - Tigres Asiáticos, Nafta, Mercosul, União Europeia, por exemplo. Entretanto, tais países nunca devem se restringir a comercializar com os seus vizinhos. Pelo contrário, devem sempre almejar expandir suas fronteiras mercantis, a ponto de buscarem se tornar cada vez mais desenvolvidos comercialmente e economicamente. O Chile, por exemplo, preferiu ser livre para realizar vários acordos com países da Europa do que se vincular ao grupo sul-americano - o que tem se mostrado de grande expertise.

Aqueles que advogam por mais protecionismo e nacional-desenvolvimentismo, à parte de relações internacionais, estão flertando com os mesmos erros que levaram à derrocada da Alemanha nazista, da União Soviética e Coreia do Norte. Se um país quer se desenvolver economicamente, é preciso que haja menos barreiras comerciais e mais valorização ao livre comércio entre as nações. Por que perder tempo produzindo algo ordinário quando se poderia comprá-lo de outro lugar com uma qualidade bem melhor? E por que não se dedicar a produzir algo de boa qualidade para ser vendido a quem demonstra tanto interesse e está disposto a pagar o que vale? Quando as pessoas começarem a se fazer essas perguntas, terão entendido o que é realizar comércio.