domingo, 13 de outubro de 2019

A idolatria materna rouba a glória de Deus

Uma das consequências maravilhosas de um casamento bíblico é a possibilidade de se ter filhos, e poder ensiná-los à luz das Escrituras. Textos como Provérbios 22.6 e Salmos 12.3-5 ressoam em nossas mentes todas as vezes que o assunto vem à tona. Sem dúvida, ter filhos no Senhor é uma bênção, mas pode se transformar em maldição caso os nossos corações estejam voltados para eles em vez de para Aquele que nos agraciou.

O que mais chama a atenção é o comportamento dos pais, principalmente a mãe, no que tange ao amor que é dado aos filhos quando eles nascem. Provavelmente você já deve ter ouvido, ou visto em alguma postagem de rede social, a mãe retratando quão indescritível é o amor que ela sente pelo seu infante. Adjetivos faltam a ela para exprimir quão profundo é esse sentimento. E o mais controverso é que, mesmo dentro do próprio meio cristão, isso tem sido aplaudido, perpetuado e até mesmo estimulado.

Não estou pondo em xeque o sentimento materno pela criança. Afinal, qual é o pai ou a mãe que não nutre tal acalento pelo filho mesmo antes de ele nascer?! O problema está naquilo que chamo de "idolatria materna", ou "idolatria à maternidade" - que é uma condição de anestesia dos pais, principalmente a mãe, pelo filho, chegando ao ponto de transformá-lo num ídolo, e substituindo Deus por esse novo objeto de amor, devoção e adoração.

O que atesta essa condição idolátrica é justamente o fato de a mãe não conseguir definir o seu amor emotivo pelo filho. Palavras como "indescritível", "sobre-humano", "absurdo", "sem igual", utilizadas para expressar o amor que sentem por seus filhos, são parecidas com aquelas que usamos para definir o amor que o próprio Deus tem para conosco, e que deveríamos buscar retribuí-lo semelhantemente. Talvez, o próprio fato de a mãe se expressar desse jeito já poderia ser uma vantagem sobre os homens, no fato de retribuírem aquele amor divino ao Criador. Mas, infelizmente, esse amor materno acaba se transformando num fim em si mesmo, e o que deveria ser motivador torna-se estático.

Quando digo que isso atinge principalmente as mães, refiro-me ao fato de ser ela a incubadora daquele infante, já que o carrega por nove meses em seu ventre, além de passar por todos os ciclos hormonais e fisiológicos possíveis a fim de manter aquela vida ativa e crescendo. O pai não é nem coadjuvante. Antes, acaba se tornando apenas uma figurante, tentando sofrer junto, mas sem possuir as mesmas dores por quais a mãe passa. Mas ainda assim, ele também não deve ser desresponsabilizado pela idolatria materna que acontece. Pelo contrário, se o pai cristão agisse como pastor, guia e líder de sua esposa, saberia muito bem como proceder a fim de reconfigurar essa idolatria à maternidade para a adoração (e gratidão) ao Deus verdadeiro que bem-aventurou a sua esposa.

Quando a criança nasce, é natural receber mais atenção e cuidado por parte dos pais, e principalmente da mãe, haja vista que como qualquer mamífero, ela precisa ser amamentada, acalentada e se sentir segura da mesma forma que era enquanto estava no ventre. O período em que os pais ficam sem fazer sexo é uma condição em que o próprio Deus abençoa a fim de que eles possam prover o necessário para aquela criaturinha que acabou de vir ao mundo. O problema surge quando o coração dos pais, após esse período de "castidade", se volta unicamente para o filho, o que faz com que cada cônjuge abandone um ao outro. Quando isso acontece, os pais não percebem como abrem brecha para a ação do diabo em seu casamento. A idolatria materna é o primeiro passo para o esfriamento espiritual e, consequentemente, marital.

Na Bíblia, lemos a história de Ana, a mãe de Samuel, que, após prometer a Deus que se tivesse um filho, o entregaria a Ele para servir no Templo, teve seu ventre agraciado. E ela realmente o entregou para o ofício sacerdotal. Ana cuidou de Samuel até a idade devida para ele começar o seu treinamento aos pés do sacerdote Eli. Ana todos os anos o visitava. Imagino que se essa mentalidade atual da idolatria materna atuasse naquela época, provavelmente Ana teria procrastinado os dias de Samuel na sua casa o máximo possível, a fim de que ou Deus ou o sacerdote Eli esquecessem do que ela havia prometido. Por que ela agiria assim? Porque a idolatria materna, além de comprometer o entendimento, acaba criando uma visão dualista de posse, em que começa-se a pensar naquilo que é meu e no que é do Senhor. 

Quando não compreendemos que tudo aquilo que temos pertence ao Senhor (que nada que temos é nosso por si só), o nosso coração tende a se voltar para aquilo que pensamos mais amar. No caso da idolatria materna, o coração da mãe (e/ou do pai) volta-se ao filho de uma forma quase sacerdotal. Por exemplo, se fosse para a mãe escolher quem ela salvaria num naufrágio, o marido ou o filho, caso ela possua essa idolatria à maternidade, não pensará duas vezes em escolher o filho. É possível que ao pai, o mesmo pensamento ocorra. Ou seja, ao agir assim, ela demonstra que compreende erroneamente, e equivocadamente, o que de fato é o amor bíblico, amor esse que abarca o entendimento que devemos possuir acerca dos outros tipos de amores (amigo, cônjuge, filhos etc.).

O amor divino, amor paterno de Deus para com seus filhos, é o melhor exemplo que podemos ter sobre como amarmos com verdade, responsabilidade e sem idolatria. O Deus que nos ama nos ensina, por sua Palavra, Quem de fato devemos amar de uma forma indescritível, absurda e sem igual, em primeiro lugar. Só quando amamos a Deus com todo o nosso coração, todo o nosso entendimento, todas as nossas forças e toda a nossa alma, é que poderemos amar o nosso próximo, seja ele cônjuge, filhos, amigos, parentes e desconhecidos, de uma forma que verdadeiramente glorifique ao próprio Deus.

Se você insiste em uma indefinição do amor que sente pelo seu filho, tome cuidado. Pode ser que você já esteja flertando com a idolatria materna e nem sabe. Ao achar que está agindo bem, pode não estar sendo bíblica. Ao achar que está fazendo um sacrifício, pode não estar sendo obediente. Ao achar que está sendo exemplo para seu filho, pode estar fazendo um desserviço para o Evangelho de Cristo.

Nossos filhos começarão temer e amar ao Senhor quando perceberem quem nós mais tememos e a quem mais amamos. Se eles descobrirem que os transformamos em pequenos ídolos, então nossa pregação será vazia, e nossas orações não passarão do teto. É quando criamos (e amamos os) filhos para o Senhor, e não para nosso próprio bem-estar, é que estaremos com nossos corações voltados para glorificar a Deus, amar a Sua Palavra e depender do Espírito Santo. Não deixemos que a bênção do Senhor (o filho que Ele nos dá) se transforme em maldição (dar o nosso coração para nossos filhos, e não para Deus).

domingo, 29 de setembro de 2019

Teologia, sim, também é para crianças

Há um certo pensamento no meio cristão que parece ser "contrário" ao ensino da teologia às crianças - parece atingir pais especificamente. Coloco entre aspas a palavra contrário pois não é que os pais achem que a teologia nunca deva ser ensinada, mas que eles demonstram não levar tão a sério o ensino dela em idades tão precoce. É como se a teologia fosse vista como um tipo de sociedade secreta, onde só a partir de determinadas idades o indivíduo poderá ser apresentado a ela e terá o senso correto para ser ensinado. Porém, tal pensamento não é bíblico.

Alguns pais podem achar que ensinar a Bíblia é diferente de ensinar teologia, no entanto, ao se executar o primeiro, deve-se possuir alguns conceitos por trás do que é ensinado, a fim de facilitar o entendimento das crianças. O pai que lê com seu filho João 3.16 deve ter em mente que ali naquele simples texto contém doutrinas teológicas como soteriologia e escatologia. Não quer dizer que a criança tenha que saber de pronto o que dizem as diversas correntes teológicas, mas sim que o básico da teologia deve permear os estudos com seus pais.  

Tal como o ensino bíblico, o ensino teológico também está englobado na instrução de Paulo a Timóteo quando ele diz: "Toda escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra." (2 Tm 3.16,17). Como os pais poderão exigir dos filhos conduta cristã quando eles forem adolescentes e jovens se quando eram infantes não tiveram nenhum tipo de instrução e ensino bíblico-teológico por parte dos pais? Eis uma prece difícil de ser atendida.

Algo que acomete muitos pais cristãos no que diz respeito a esse cuidado para com os filhos é o fato de eles terceirizarem esse tipo de educação cristã-teológica. Muitos pais não exercem seus papeis de líderes de seus filhos no lar, não estudam com eles a Bíblia, muitos sequer dão o próprio exemplo em meditar e ler as Escrituras, e acabam confiando seus filhos à escola bíblica dominical. O problema é que os filhos vão para essas aulas muitas vezes sem saber o básico da vida cristã e, se lá tiver alguém comprometido em ensiná-los, eles até podem adquirir alguma noção, mas se for apenas alguém preocupado em entretê-los, então eles voltam para casa mais vazios do que quando chegaram na igreja.

Quando pais se comprometem com a educação teológica de seus filhos, proporcionalmente a cada idade, eles estarão fazendo um favor tanto aos filhos como para a sociedade em que vivem. Lembrem-se que um dos maiores exemplos de educação teológica vem do próprio Salvador. Jesus Cristo possuía doze anos quando estava no templo discutindo com os mestres da lei, e os próprios se impressionavam com sua inteligência da Escritura. Hoje, mesmo dentro do seio cristão, adolescentes de doze anos insistem em agir como bebês mimados, não se interessam em ir aos cultos, tampouco em estudar a Bíblia, e muitas vezes com o consentimento dos próprios pais. Se fôssemos a fundo para saber o porquê, é capaz de encontrarmos justamente essa omissão de não tê-los ensinado teologia quando eram infantes.

Teologia não salva ninguém. O que ela faz é te capacitar para compreender melhor a história, a sociedade, e principalmente, o que a Bíblia instrui. 

William Lane Craig, na introdução do seu livro Em guarda, resume bem como deveria ser a preocupação dos pais com o ensino teológico para seus filhos: "Os pais devem fazer mais do que apenas levar seus filhos à igreja e ler histórias da Bíblia para eles. Pais e mães precisam ser bem treinados em apologética para que sejam capazes de explicar aos filhos, desde pequenos e cada vez com maior profundidade, por que cremos naquilo que cremos. Honestamente falando, acho difícil de entender como casais cristãos, nesses tempos em que vivemos, podem correr o risco de trazer filhos ao mundo sem terem recebido um bom treinamento em apologética como parte de seu ofício de pais.".

É isso. Os pais deveriam ter uma preocupação maior tanto com a alma de seus filhos como com a integridade e postura deles face aos desafios dos tempos atuais. A teologia não substitui a Bíblia; antes, complementa e expande o que Deus nos deixou escrito. Ela sempre terá como base aquilo que a Bíblia instrui. Achar que as crianças não podem compreender a teologia da cruz, a teologia do reino, a teologia da salvação, simplesmente por supor que elas não possuem idade suficiente para isso é quase como uma negação do poder e da soberania de Deus na vida delas.

O interessante nesse pretenso temor dos pais por ensinar teologia aos seus filhos é que eles acham mais fácil a criança aprender matemática, geografia, ciências, física, química, robótica, e todas aquelas disciplinas escolares, mas não teologia. Talvez a preocupação com o futuro profissional dos filhos acabe por ofuscar a real importância em alimentar suas almas com aquilo que é bíblico e teológico. E isso pode ser um baita problema quando imaginamos no que eles podem se transformar caso não estejam firmados na rocha correta.

Que o estudo sincero e predisposto da Bíblia possa conduzir os pais à teologia. Que os pais não se enganem achando que só o pastorado ou as lideranças são capazes de instruir seus filhos teologicamente. Que por meio de exemplos como os de Samuel, Daniel, Davi e Jesus, os pais possam compreender a importância de ensinar teologia aos seus filhos. Que os pais possam, enfim, saber que nenhum trabalho no Senhor é em vão (1 Co 15.58), principalmente ensinar teologia aos seus filhos desde o momento em que eles pronunciam as primeiras palavras.

domingo, 15 de setembro de 2019

Não seja um "adultescente" cristão

Nem sempre o cristianismo que dizemos professar corresponde à maturidade espiritual que dizemos possuir. Com isso, não é surpresa nenhuma vermos adultos cristãos se comportando mais como adolescentes ou crianças de colo do que como verdadeiros guerreiros do estandarte cristão.

Paulo em 1 Coríntios 13.11 revela que quando ele "era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança; mas, assim que {chegou} à idade adulta, {acabou} com as coisas de criança." O fato é que tudo na vida do ser humano tem um tempo e um momento. Paulo teve o tempo, antes de ser integrado a Cristo, de agir como quem não tem pastor, como quem pensa que tudo é brincadeira e fanfarras. Mas, a partir do momento em que o Evangelho do Reino lhe concede vida abundante, enfim, ele começa a crescer, amadurecer, e parar com as coisas de criança, fossem elas pensamentos ou atitudes infantis, raciocínios ou conversas imaturas.

De fato, a vida do cristão possui essas fases de imaturidade, onde ele ainda tem que beber leite em vez de comer alimento sólido. Porém, como qualquer processo de crescimento humano, a vida espiritual também requer que o cristão não se contente unicamente em beber aquele leite espiritual. E isso faz toda diferença se quisermos ser testemunhas de Jesus Cristo. Cristãos que já possuem anos de conversão, mas que ainda agem como se fossem neófitos, demonstram possuir uma falha no que diz respeito à sua própria caminhada cristã. Muitos acabam não percebendo, e findam por se envolverem em determinadas atividades eclesiásticas sem possuírem o mínimo exigido biblicamente para tal (cf. 1 Timóteo 3). O resultado, mais dia menos dia, não será dos melhores.

A despeito dos vários textos bíblicos que conclamam o cristão a progredir no amadurecimento de sua fé em Cristo e de sua caminhada cristã (cf. Salmo 90.12; Colossenses 4.6; Efésios 5.15; 1 Tessalonicenses 4.1; Filipenses 4.14; 1 Coríntios 2.16; Tiago 1.5; 2 Pedro 3.18 etc.), ainda assim muitos dos adultos cristãos optam por viver uma vida cristã de eterno divertimento, entretenimento e licenciosidade. Com isso, acabam sendo o exemplo negativo de modelo cristão para seus filhos (se assim possuem), colegas de trabalho, vizinhos ou familiares. 

O padrão a ser perseguido não é o dos pais da igreja, dos teólogos reformados, dos puritanos ou dos pregadores da velha escola do século passado, conquanto muitos deles sejam exemplos de santidade e maturidade cristã, mas sim Jesus Cristo, esse sim que é o modelo perfeito para o amadurecimento do cristão. Entretanto, ainda que os adultos cristãos afirmem segui-lo e professar seus mandamentos, na realidade o que pode ser visto é um ateísmo prático, onde Cristo pouco (ou nada) faz parte das diversões, estudos bíblicos (individual ou em grupo) e das conversas deles.

Ao cristão não lhe é proibido rir ou contar piadas, desde que isso não se torne o seu ideal de vida. O problema surge a partir do momento em que as conversas, reuniões e discussões (aparentemente bíblicas) são pautadas unicamente por querer transformá-las em motivo de piada ou chacota gospel. O adulto cristão que sente alegria em ser o bobo da corte de sua turma demonstra tanto imaturidade como um tipo de complexo de Peter Pan, querendo agir e ser visto como uma eterna criança. Só que agir assim não é o que a Bíblia orienta. 

Que os adultos cristãos possam amadurecer na caminhada cristã, não entristecendo o Espírito Santo que neles habita (se de fato eles são cristãos). 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

O protecionismo atravanca o progresso

Vivemos em um país que se vangloria por seu imenso protecionismo tresloucado. Diferentemente de países onde a frouxidão das barreiras alfandegárias os tem auxiliado a desenvolverem suas economias, permitindo uma competitividade e qualidade maior em relação a produtos nacionais e, consequentemente, maior consumo de itens importados por parte da população, assim como melhores relações comerciais com países desenvolvidos, o Brasil segue na direção contrária, se colocando na mesma posição de nações com regimes totalitários (como Venezuela, Cuba e Coreia do Norte), atestando sua mentalidade e acomodação como país subdesenvolvido.

A forma estatizante de governo é uma das principais causas do atraso econômico em que o país se encontra. A vontade estapafúrdia que o Estado tem em querer ser “dono” e fiscal de cada serviço “imprestável” prestado ao cidadão é personificado na acomodação desse mesmo cidadão em querer que o Estado continue sendo sua “ama de leite”. Não advogo uma total exclusão da atuação do Estado, apenas que ele aja de uma forma mínima no contexto civil. Muitos dos assim chamados serviços públicos, desempenhados pelo Estado, poderiam ser realizados pelo setor privado sem a necessidade de licitações e regulamentações que estamos acostumados a ver.

Há lugares no nosso país tupiniquim que não possuem sequer saneamento básico, com a população [sobre]vivendo como se estivesse no século 16 ou 17. Se o Estado desobstruísse esse serviço para empresas privadas executarem-no, o fio de esperança em se acabar com doenças do século passado estaria ainda vivo. Mas o ímpeto em querer protelar a dependência estatal para a resolução de problemas parece um tipo de lavagem cerebral.

Uma das melhores coisas que pode existir em uma nação, e que estimula seu crescimento econômico, é a liberdade de negociação, oferta e escolha (ou livre mercado), ou seja, para um empreendedor que produz determinado item, haverá um consumidor que demande esse produto/serviço. Quanto mais vendedores existirem para ofertar aquele produto, mais qualidade se terá na oferta e mais possibilidades de escolhas para o consumidor. O vendedor procurará sempre melhorar seu produto para ser comprado o mais rápido possível pelo cliente e este, na medida do razoável, barganhará a fim de pagar o valor justo pelo produto.

Vemos que isso não acontece muito no Brasil. Um dos exemplos claros é o Uber. Taxistas (e seu sindicato) não toleraram a presença desse serviço, que por sinal é mais barato, mais confortável e mais rápido. A primeira coisa que fizeram foi protestar para que fosse banido do país. Tentativa sendo frustrada, propuseram que sua atuação fosse regulamentada, o que transformaria o Uber em um serviço burocrático como o Táxi. Para estes, a preocupação não está no consumidor. Antes em perpetuar seu próprio monopólio.

Essa dependência para que o Estado sempre proteja uma determinada classe já virou rotina nos arraiais brasileiros. É lei de cotas raciais para universidades e empregos públicos, projetos assistenciais (Bolsa-Família, Minha Casa Minha Vida, por exemplo), regulamentações que beneficiam sindicatos e cada vez mais criam-se leis com a desculpa de “proteger” o cidadão, quando, na verdade, perpetua-se o controle estatal sobre a vida das pessoas.

Enquanto não acordarmos do sono da dependência governamental que vivemos, continuaremos a ser um país com mentalidade subdesenvolvida, com os mesmos sonhos utópicos de que o Leviatã sabe o que é melhor para os cidadãos do que eles mesmos. Como disse o economista Roberto Campos: “Sempre achei que um dos mais graves problemas dos países subdesenvolvidos é sua incompetência na descoberta dos seus verdadeiros inimigos. Assim, por exemplo, os responsáveis pela nossa verdadeira pobreza não são o liberalismo nem o capitalismo, em que somos noviços destreinados, e sim a inflação, a falta de educação básica e um assistencialismo governamental incompetente, que faz com que os assistentes passem melhor do que os assistidos.”

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Relações comerciais dão frutos, basta plantar as sementes certas

Quando se estuda economia, nos é apresentado um conceito chamado vantagem comparativa, que nada mais é do que a escolha por realizar trocas comerciais - possibilitando menos perda de tempo na produção de certos bens de consumo - do que optar por produzir tudo em seu próprio território. De forma prática, se um agricultor A planta laranjas e melancias em sua terra, enquanto outro agricultor B produz queijo, laranjas e melancias, mas preferiria se dedicar apenas à produção de queijo, já que é o que sabe fazer melhor, este agricultor B possui uma vantagem em comparação ao agricultor A, e então pode optar por, em vez de continuar plantando laranjas e melancias, comprar de A. Tal atitude redundará na contenção de gastos (desnecessários) que o produtor B terá se dedicar-se apenas à sua produção de queijo. O produtor B poderia também comercializar o queijo com o produtor A - caso ele estivesse interessado em comprar -, já que tal alimento não faz parte de sua produção. E assim temos o comércio entre duas pessoas.

Isso é o que acontece quando dois países assinam acordos e tratados de comercialização de produtos importantes para o desenvolvimento de cada um. Ainda que entre eles, um possa ser capaz de produzir todos os produtos (chamemo-no de X), torna-se mais vantajoso dedicar-se à produção de um bem em específico para comercializá-lo com países que não possuem tanta facilidade em produzi-lo (chamemo-nos de Y). Como em qualquer tipo de acordo não existe apenas um lado que sai ganhando, é necessário que o país X "invista" no país Y a quem irá vender, e ele faz isso comprando produtos que são os únicos que este pode produzir (por mais que ele - X - produza esses mesmos itens, entretanto o ganho com a venda do produto específico é mais compensatória do que a compra do produto básico).

A tendência é que países que possuem destaque na produção de itens específicos (p. ex., a Coreia do Sul e sua indústria de tecnologia), mas que não possuem áreas para produção de itens mais básicos de consumo (como alimentos, em geral), entre em relação com países que o possuem, causando um benefício mútuo entre as duas nações. Essa é a maravilha da globalização: o foco no crescimento e desenvolvimento econômico apoiado na cooperação comercial.

Essas relações comerciais é o que fazem hoje você estar vendo esse texto com o seu computador ou celular. O Brasil não possui uma cadeia de produção de cada item do computador ou celular (restringe-se mais a cadeia de montagem). Os componentes elétricos são fabricados em algum lugar da Ásia, que são exportados até desembarcar no Brasil. As baterias de lítio são produzidas em outra parte do mundo. O vidro da tela pode até ser produzido aqui, mas seus softwares são patenteados por outra empresa estrangeira. O que quero dizer é que torna-se dificílimo, hoje em dia, um país ser autossuficiente na produção de itens desde a concepção de cada parte que os compõem. É assim com qualquer produto, até mesmo um lápis. Milton Friedman traz uma boa reflexão sobre quão "complexo" é a produção de um lápis.

Quando países se fecham ao comércio, com a justificativa de aspirarem desenvolver a indústria nacional, eles estão cavando a sua própria sepultura de falência e derrocada econômica. Haja vista que estarão indo na contramão do verdadeiro desenvolvimento. Quanto mais parceiros comerciais um país tiver, mais possibilidades haverá para que novas indústrias sejam abertas - o que gera emprego e mais renda aos trabalhadores - de forma a propiciar mais exportação de produtos e, consequentemente, mais crescimento econômico. Lembre-se: em verdadeiros acordos de livre comércio, todos saem ganhando - o importador e o exportador.

É dessas relações que nascem os famosos blocos econômicos - Tigres Asiáticos, Nafta, Mercosul, União Europeia, por exemplo. Entretanto, tais países nunca devem se restringir a comercializar com os seus vizinhos. Pelo contrário, devem sempre almejar expandir suas fronteiras mercantis, a ponto de buscarem se tornar cada vez mais desenvolvidos comercialmente e economicamente. O Chile, por exemplo, preferiu ser livre para realizar vários acordos com países da Europa do que se vincular ao grupo sul-americano - o que tem se mostrado de grande expertise.

Aqueles que advogam por mais protecionismo e nacional-desenvolvimentismo, à parte de relações internacionais, estão flertando com os mesmos erros que levaram à derrocada da Alemanha nazista, da União Soviética e Coreia do Norte. Se um país quer se desenvolver economicamente, é preciso que haja menos barreiras comerciais e mais valorização ao livre comércio entre as nações. Por que perder tempo produzindo algo ordinário quando se poderia comprá-lo de outro lugar com uma qualidade bem melhor? E por que não se dedicar a produzir algo de boa qualidade para ser vendido a quem demonstra tanto interesse e está disposto a pagar o que vale? Quando as pessoas começarem a se fazer essas perguntas, terão entendido o que é realizar comércio. 

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

A "nova" tolerância e seus discípulos

D. A. Carson em seu livo A Intolerância da Tolerância expõe como o abandono, cada vez maior, do antigo modelo de tolerância - em que ideias e posicionamentos (ideológicos, religiosos, culturais etc.) podiam ser criticados ou se colocar contra eles, sem que o crítico sofresse rejeição ou censura - tem dado lugar a uma "nova" tolerância, em que não se pode mais manifestar o desacordo diante de qualquer tipo de assunto, principalmente se envolver questões de ordem sexual, religiosa e cultural. Em nome da nova tolerância, não se tolera quem é adepto da antiga tolerância.

E diante de tal clima de permissividade para se fazer tudo, desde que não haja quem lhe confronte ou emita um pensamento contrário, é que a sociedade tem caminhado para a sua desordem. Se todos podem fazer aquilo que lhe dão na telha, sem  a necessidade de alguém se posicionar contra, então não existe mais a necessidade de um valor moral. Quando não se tolera que sejam emitidas críticas a determinados estilos de vida ou de conduta, com a desculpa de que isso pode ferir as emoções daquele que possui tal estilo de vida ou conduta, abre-se um precedente perigoso para que não haja críticas a qualquer coisa (p. ex., o ladrão não pode ser criticado por seu ato, já que fez isso porque não possui emprego).

É interessante como esse clima de "nova" tolerância atinge qualquer setor de nossas vidas. Citando especificamente o campo político, vemos que muitas pessoas utilizam o artifício do "não me julgue, me aceite" para impor suas próprias visões e concepções, sem deixar espaço para que outros lhes mostrem (expondo ideias antagônicas) de que elas estão completamente equivocadas. Não. Nesse campo ideológico, não há espaço para debates e a discussão de posicionamentos contrários. Ou se diz que é a favor ou se é tachado como inimigo mortal - e daí pode surgir todo tipo de adjetivo falacioso a quem não concorde (coisas como fascista, homofóbico, racista, misógino etc.), mesmo que não se abra espaço para que essa visão diferente seja exposta.

No ambiente acadêmico, também é possível ver esse clima da "nova" tolerância, onde são permitidos e estimulados apenas eventos mais ligados a pautas de esquerda, enquanto que o menor vislumbre a eventos conservadores ou que se coloquem no espectro político à direita são rechaçados e, se possível, banidos da universidade. Casos como a exposição de filmes em que constam personalidades de direita ou críticos ferrenhos de movimentos de esquerda já vieram à tona (p. ex., o filme O Jardim das Aflições na Universidade Federal de Pernambuco, em que alunos responsáveis pelo evento foram intimidados por militantes de esquerda que reivindicavam o banimento do filme e de todos que o apoiassem).

Outro caso em que essa "nova" tolerância foi colocada em prática foi o caso de um confeiteiro nos Estados Unidos que havia se recusado a preparar um bolo para um casamento homossexual, devido o evento ser contrário à sua crença religiosa (cristã). O confeiteiro ainda se prontificou a indicar outro profissional para os nubentes, mas eles alegaram preconceito e o caso foi parar nos tribunais. Para os nubentes, o confeiteiro se recusar a preparar um bolo (sendo que o dano maior é para o próprio confeiteiro que deixaria de ganhar dinheiro) era uma prova clara de intolerância - mas também não seria "intolerância" não respeitar as crenças e o posicionamento do confeiteiro e de sua empresa? As últimas notícias indicavam que o tribunal deu parecer favorável ao confeiteiro, respeitando assim o princípio americano de não ferir a liberdade de expressão.

Nas redes sociais, volta e meia surge alguém com esse tipo de "tolerância", em que a pessoa publica tudo aquilo que vem à sua mente, sem nenhum filtro ou ponderação, mas quando vê alguma publicação que não lhe agrada (seja por conta de suas posições políticas, religiosas ou culturais) acaba alegando desrespeito, por parte daquele que publicou, ou afronta. A "nova" tolerância só tolera aquilo que coaduna com suas próprias concepções, e esses "novos tolerantes" sempre se mostram verdadeiros tiranos quando são expostos a pensamentos contrários ou divergentes.

A formação de uma sociedade equilibrada passa por tolerar visões contrárias às suas, sem necessariamente obrigar as pessoas a aceitar suas ideias e não exigir que as delas não sejam expressas. 

domingo, 7 de outubro de 2018

Empreender requer mais liberdade e menos intromissão do Estado

O empreendedorismo é uma das atividades mais exercidas no mundo. Pessoas que conseguem colocar em prática ideias que muitos julgariam como absurdas ou sem sentido, mas que, ao saírem do papel, conseguem beneficiar uma grande gama de pessoas. Inovação e criatividade é a chave para o empreendedor. Países com maior liberdade de trabalho e, consequentemente, que se destacam na economia possibilitam aos seus cidadãos e estrangeiros residentes criarem negócios impactantes e que movem ainda mais o fluxo econômico e financeiro daquele território.

No Brasil, ao contrário, vemos um retrocesso na atividade empreendedora. Devido à cultura do funcionalismo público e da acomodação, bem como aos entraves burocráticos em se abrir uma nova empresa no país, as pessoas acabam desistindo de iniciar aquela ideia inovadora ou aquele negócio que lhe garantiria o sustento, tornando-o patrão de si mesmo. Muitos só ouvem falar sobre empreendedorismo na faculdade, e mesmo assim, por conta de apenas uma disciplina ensinada durante os anos da graduação. E os alunos, muitas das vezes, não gostam da aula, seja por conta do professor que passa o conteúdo de forma equivocada ou despretensiosa, seja por causa do próprio aluno que só está interessado em fazer concurso público quando se graduar - e, por isso, acha que tal disciplina não vai lhe agregar nada de importante.

Em comunidades de baixa renda (como algumas perto de onde moro) é inegável o número de comércios informais onde as pessoas trabalham. Os mais comuns são lanchonetes, lojas de roupa, salões de beleza ou barbearias, serviços de manutenção em eletrônicos, oficinas, barracas de frutas e verduras, ateliês de costura entre outros. Na maioria desses locais, você vai encontrar uma freguesia fiel, uma preocupação em fornecer produtos/serviços com qualidade, assim como estabelecimentos que possuem empregados e que garantem tanto o ganha-pão como a experiência profissional no currículo deles. Os donos desses estabelecimentos - os empreendedores - não precisaram fazer nenhum curso (apesar de que podem aumentar os seus conhecimentos e melhorar seus negócios) nem precisaram de nenhum incentivo do Estado ou de políticos. Eles fazem a economia girar em seus bairros, propiciando aos clientes satisfação no atendimento de suas demandas, e obtendo o lucro necessário para viverem dignamente. Não é de surpreender quando um ou outro consegue expandir seus negócios e, consequentemente, gera mais emprego para os seus vizinhos.

Mesmo com todos os benefícios que esses microempreendedores proporcionam à sociedade, eles ainda são vistos com maus olhos pelo Estado, já que não estão regularizados - e aí entra todo aquele pesadelo burocrático que atravanca o desenvolvimento do negócio do cidadão (reconhecimento de firma, regularização na junta comercial do estado, certificações dos vários órgãos do município e do estado etc.). Ou seja, para o Estado, você pode ter uma boa ideia, colocá-la em prática no seu bairro, ter um boa clientela, gerar emprego para outras pessoas, garantir o seu sustento e o que for, mas se não estiver regularizado será tachado como um pirata.

A justificativa do Estado é que o lucro que o empreendedor informal obtém corre o risco de não ser declarado à Receita, bem como o próprio Estado acaba deixando de arrecadar os tributos necessários à manutenção dos serviços públicos, então por isso é necessário a formalização daquele negócio. Mas se é tão importante para o Estado ter essa arrecadação, por que o empreendedor ainda leva quase três meses para formalizar seu empreendimento perante os órgãos fiscalizadores? Por que é tão burocrático e demorado, se em países desenvolvidos e que valorizam o empresário isso não leva mais do que uma semana? No fundo, o Estado acaba ganhando também nessa pretensa formalização, já que o número de taxas e impostos que serão pagos pelo interessado faz com que tal burocratização não seja atenuada. Com isso, o empreendedor ou desiste de suas ideias, e vai parar na informalidade correndo todos os riscos por tal escolha, ou se rende ao Leviatã, e o transforma em seu dono.

A famosa citação de F. A. Hayek resume bem o pensamento do brasileiro com relação ao empreendedorismo (especialmente à abertura e gestão de empresas): "A geração de hoje cresceu num mundo em que, na escola e na imprensa, o espírito da livre iniciativa é apresentado como indigno e o lucro como imoral, onde se considera uma exploração dar emprego a cem pessoas, ao passo que chefiar o mesmo número de funcionários públicos é uma ocupação honrosa."